
November 9, 2012
Cresce a tendência mundial de permitir às pessoas elaborar produtos ou serviços ainda inexistentes
Já pensou em participar da criação, do início ao fim, de um produto que você deseja ter e com o formato que mais lhe agradar? E mais: obtê-lo em primeira mão e, quem sabe, tornar-se coproprietário como sócio da empresa dona da marca, passando a ganhar lucros sobre as vendas? E o melhor de tudo: beneficiando outras pessoas?
A possibilidade ainda engatinha no Brasil, mas se consolida principalmente nos Estados Unidos, permitindo que os consumidores sejam empreendedores. O assunto não é propriamente inédito. Empresas mais abertas sempre convocaram clientes para opinar sobre novos artigos. Mas agora a ideia avança para um envolvimento mais profundo, que vem sendo chamado de presumers - fundar, cocriar e aperfeiçoar produtos.
Professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM-Sul), Genaro Galli lembra que as raízes do movimento remontam a 2004, quando o economista indiano C. K. Prahalad apresentou a "era da cocriação". O consumidor deixa de ser passivo, associando-se a uma iniciativa de forma transitória ou permanente.
Depois de ouvir palestra de Prahalad e estudar outros pesquisadores do tema, como o norte-americano Philip Kotler, Galli percebeu que a internet deu ainda mais voz ao consumidor, popularizando a época colaborativa ou interativa.
- Acredito que é uma tendência que não vai diminuir. Passará a ser uma postura das empresas, que não podem se fechar em castelos - ressalta o professor da ESPM.
Galli diz que a ideia se propaga pelo Brasil. Em São Paulo, uma fabricante de camisetas pede sugestões de modelos aos fregueses. Depois, vende as peças e distribui parte da renda aos que ajudaram na criação. Uma indústria de refrigerantes promoveu algo similar, para dar nomes às embalagens.
- As melhores ideias não estão necessariamente dentro da empresa. Podem estar do lado de fora - observa o professor de marketing.
A presumers conquista a excelência quando favorece a grupos necessitados. Os exemplos se multiplicam. No final de outubro, quando o furacão Sandy devastou parte da costa leste dos Estados Unidos, especialmente Nova York, os integrantes da Razoo se mobilizaram, com outras entidades, para levar alimentos, agasalhos, água potável e eletricidade aos flagelados.
- Seja um herói - incentivava o site da Razoo, ao mostrar como os americanos poderiam contribuir para um fundo de reerguimento.
Outros países praticam o consumo solidário. No México, o projeto Minha Horta Urbana oferece um kit para as famílias que desejam cultivar rúcula, alface, morango e temperos, entre outros. O jardim portátil não requer manutenção: só é preciso regar e adubar as plantas uma vez por semana. Até o mês passado, a Minha Horta Urbana havia arrecadado US$ 7 mil.
A cultura também pode ser impulsionada. Em junho, a livraria One Way Street Library, de Pequim, arrecadou US$ 37 mil e usou o dinheiro para se instalar em um shopping popular, no centro da cidade. Com a nova sede, lançou livros e permitiu a leitura ao público.
Ideias que mudam vidas
Conheça a tendência presumers, em que o consumidor participa da criação de um produto ou serviço, às vezes em favor de outras pessoas:
Ousar e diversificar
Consumidores deixam de ser passivos, não esperam que o produto chegue ao mercado. Querem se envolver na criação e elaboração, em busca do objeto perfeito. Ao interagir com empresas, tornam-se empreendedores de mercadorias ou serviços que ainda não existem.
Exemplo
Nos Estados Unidos, a Kickstarter lançou 73 mil projetos de sucesso, até setembro, nas áreas de tecnologia, design, moda, produção de filmes e peças de teatro, arrecadando US$ 377 milhões.
Excesso de escolhas
Consumidores de países desenvolvidos enfrentam o desafio do excesso de escolhas. Ao participar da criação de produtos, podem obter, em primeira mão, o melhor, o mais novo, o mais especial.
Exemplo
Nos EUA, um brinquedo surpreendente, sobre engenharia, foi produzido para meninas. A invenção levou em conta que as mulheres ocupam 11% das vagas de engenharia no mundo. Trata-se de um kit de madeira e circuitos, com o qual a criança pode brincar e decorar o quarto interativo.
Compartilhar com os amigos
Quem participa da elaboração de um produto não é apenas consumidor. Pode usufruir da condição de empreendedor, passando a ter uma história para compartilhar com os familiares e os amigos.
Exemplo
Em outubro de 2011, Karen Freer, que sofre da doença celíaca (dificuldade de absorver nutrientes, vitaminas, sais minerais e água), lançou um pão sem glúten, mas nutritivo, que favoreceu os moradores da periferia de Nova York. Arrecadou US$ 10 mil em fundos.
Além da satisfação
Consumidores que são cocriadores de produtos devem ir além da satisfação da posse e do uso de uma novidade. Será mais recompensador se o produto ou o serviço estiver ligado a alguma causa social. Isso gera a sensação de pertencimento a um grupo.
Exemplo
Na Austrália, parte dos rendimentos de uma nova marca de papel higiênico foi usada para construir banheiros em países pobres. Ao saber que 2,4 bilhões de pessoas não têm acesso a saneamento básico, Simon Griffiths bolou a ideia.